domingo, março 10, 2013

:D


Precisava de ti naquela noite e quando dei por mim estava absolutamente só... nem tu lá estavas... mas SIM, tens razão, podia ter ido ter contigo....
A verdade é que exagero sempre, rodopio em remoinho, zarpo a ferver num ápice e chateio-me forte e feio, mas isso só acontece porque te adoro tal qual como és...
Achas que sou perfeita e eu digo-te que detestaria se fosse... Também transpiro como toda a gente, choro e anseio como toda a mulher, faço escolhas e nunca hesito em tomar posição e partidos, mesmo que isso me custe um preço, me faça comichão no orgulho ou venha a perder a razão a posteriori...
Preciso do meu espaço...  e na sede tanto me ajudar, quase me sufocas, às vezes.
Olha que eu sou raio de sol, sou Vida e alegria... Isto não é pedalada a mais, sou eu...não me vês???
Mas também sou luar, Sombra e tristeza e isso não é doença, também sou eu...
Para ti, é mais fácil gerir o lado lunar...Para mim não.
Preciso de fazer tudo agora porque sei que esse dia cinzento vai chegar e aí, SIM, vou precisar dos meus junto de mim...de ti também.
Sou de absoluta confiança, não imagino porque duvidas...  Mas também sou tolerante e totalmente flexível. Odeio rótulos e formatações e sobranceria.
E como diria o meu preferido do Pessoa na sua Tabacaria,
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. (...)"

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Macau... 6 anos depois!...

Perguntam-me muitos quantos pululam por estas paragens, os amigos e os outros, vezes sem conta, mais ou menos retoricamente: _ está tão diferente esta terra, não achas!?...
E eu, sorriso plantado no rosto, digo e re-digo sem pausas... que não! Está exactamente na mesma... no ponto em que ficou quando parti...
E sorrio novamente e rio já menos contida... pois é, sem tirar nem pôr!... Mais néon, menos dourado, casinos a brotarem que nem cogumelos, a beber desta humidade tão fértil!...
Mas na essência, está tudo tal qual neste Delta das Pérolas...
E que bem que me sabe esta familiaridade, estes odores, este quente que se entranha tão fundo, mais fundo do que alguma vez podia imaginar...
Macau estava-me encravado na alma, lá dentro, lá fundo, tão bom...
Os portugueses continuam aí abundantes, dos bons e dos menos bons, dos que se entranharam e dos que continuam a dizer mal da terra - desta e d'além mar -, à laia das nossas cantigas de escárnio... é mais forte que eles, tadinhos!!!
Os fortes, estão mais sólidos... e dos fracos, não reza a história...
Na noite repetem-se caras e plásticas e feelings... 6 anos mais tarde, com tudo o que isso implica...
Eles mais acabados que elas, hèlas! C'est lá vie, mon ami... toca a todos!...
A mim, curiosamente, dizem-me que estou na mesma, mais ou menos elogiosamente, gabando-me as linhas enjeitadas, ainda, de rugas... e uma borbulha aqui e ali que sempre ajudam a disfarçar o tempo...
O meu tempo, esse aliado exasperante, amigo e inimigo de sempre, de todas as horas, boas e más...
O tempo, esse magister insuperável... tem sido misericordioso aqui com a cachopa, pelos vistos... (risos, muitos!...)
Mas continuo à procura, perscrutante, como sempre... de mim e dos outros... estou aqui inteira, enfim...
E tudo isto se resume, sonoramente, no "grito do Ipiranga" de um certo Tuga, braço entrelaçado numa certa acompanhante, numa certa noite, num certo templo nocturno:
_ WELCOOOOOOOOOOME! 

_ i do feel warmly welcome, 'Ng Goi sai!...



sábado, dezembro 29, 2012


1.reorient - orient once again, after a disorientation
2.reorient - cause to turn
tip - cause to tilt;
turn - cause to move around or rotate;
3.reorient - set or arrange in a new or different determinate position;
change - undergo a change; become different in essence; losing one's or its original nature;
alignalineadjustline up - place in a line or arrange so as to be parallel or straight;
skew - turn or place at an angle;

sábado, dezembro 22, 2012

Mais um inverno


«Cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltámos atrás. Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes.» 
José   Luís Peixoto, in 'Abraço'

terça-feira, março 15, 2011

Passo a publicidade...

Porque nos tempos que correm, o difícil é mantermo-nos fiéis àquilo em que acreditamos e arriscarmos, procurarmos, inventarmos...sem sermos subservientes em relação aos Media, às Redes Sociais, aos Comentadores de Opinião fácil...sem sermos, afinal, apenas mais um do Rebanho de tresmalhados que serve de presa fácil a uma classe política sem classe, que nos enjeita com a mesma facilidade com que agora nos eleva a bandeira! Não podemos esperar milagres de um país que está, todo ele, à rasca! Há que promover, isso sim, uma verdadeira revolução de mentalidades, a nossa incluída!!!




domingo, março 06, 2011

das aparências não reza a história...


Epicteto foi um filósofo grego, pertencente à Escola
Estóica. Viveu a maior parte de sua vida como escravo
 em Roma. Dos seus ensinamentos conservam-se  "Enchyridion"
ou "Manual e alguns discursos, editados pelo seu discípulo,
Flávio Arriano. Seu nome vem do grego, "epiktetos" - "adquirido" ou "comprado".



«Das coisas que há no mundo, umas estão na nossa mão e outras não. Na nossa mão estão a opinião, a suspeita, o apetite, o aborrecimento, o desejo e, numa palavra, todas as obras que são nossas. Não estão na nossa mão o corpo, a fazenda, nem a honra (reputação), nem o senhorio, nem com efeito nenhuma das que não são obra nossa. As coisas que estão na nossa mão, de sua natureza são livres e senhoras sem impedimento nem embaraço. E as que não estão na nossa mão, de si são fracas, servis, embaraçadas e sujeitas. 
Pois olha que, se tiveres por livre o que na sua natureza não o for, e por teu o que em efeito não o é, haverás de embaraçar-te, e lamentar-te, e queixar-te dos deuses e dos homens. Mas se só o que é teu tiveres por tal, e por alheio, como o é, o que não é teu, não haverá nunca quem te faça força; a ninguém acusarás; de ninguém te queixarás; nenhuma coisa farás contra tua vontade; não terás nenhum inimigo; ninguém te fará mal; nem receberás nenhum dano nem perda.
Se vires algum homem muito honrado, ou poderoso, ou por qualquer outra via engrandecido, olha que não te deixes levar por essas aparências e o tenhas por bem-aventurado; porque se a importância, e ser do sossego se puder ser no que está em nossa mão, nem a inveja, nem a emulação terão lugar em nada; e tu mesmo, antes que ser imperador, cônsul, ou senador, tomarias ser livre e senhor de ti mesmo: para o que há um só caminho, que é o desprezo de todas as coisas que não estão na nossa mão. 
Traz sempre diante dos olhos a morte, desterros e tudo que se tem por trabalho, e mais que tudo a morte. E com isto nem terás nenhum pensamento baixo, nem desejarás nada com muita força. 
Das coisas que servem ao corpo não se há-de tomar mais de quanto convenha para o ânimo; como de comer, beber, vestido, e casa, e serviço: o que não serve senão de vaidade, ou de delícias, deita-o de ti.(...)»



Epicteto in 'Manual'

sábado, março 05, 2011

do diz-que-disse e coiso e tal...

Uma das formas mais universais de irracionalidade é a atitude tomada por quase toda a gente em relação às conversas maldizentes. Muito poucas pessoas sabem resistir à tentação de dizer mal dos seus conhecimentos e mesmo, se a ocasião se proporciona, dos seus amigos; no entanto, quando sabem que alguma coisa foi dita em seu desabono, enchem-se de espanto e indignação. Certamente nunca lhes ocorreu ao espírito que da mesma forma que dizem mal de não importa quem, alguém possa dizer mal deles. Esta é uma forma atenuada da atitude que, quando exagerada, conduz à mania da perseguição.
Exigimos de toda a gente o mesmo sentimento de amor e de profundo respeito que sentimos por nós próprios. Nunca nos ocorre que não devemos exigir que os outros pensem melhor de nós do que nós pensamos a respeito deles e não nos ocorre porque aos nossos olhos os méritos são grandes e evidentes ao passo que os dos outros, se na realidade existem, só são reconhecidos com certa benevolência. Quando o leitor ouve dizer que alguém disse qualquer coisa desprimorosa a seu respeito, lembra-se logo das noventa e nove vezes que reprimiu o desejo de exprimir, sobre esse alguém, a crítica que considerava justa e merecida, e esquece-se da centésima vez em que, num momento de desatenção, afirmou a respeito dele o que julgava ser a verdade. Esta é a recompensa, perguntará a si próprio, de toda a minha longa indulgência? O problema, visto do lado oposto, apresenta-se de uma forma diferente: ele nada sabe das noventa e nove vezes em que o leitor se calou, conhece apenas a centésima vez em que falou. 

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade" 

sexta-feira, março 04, 2011

Da princesa de outrora...


Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. 

José Eduardo Agualusa, in 'O Vendedor de Passados'

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Ao sol...colhendo as flores...


Sê Rei de Ti próprio
Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Caminhante solitária...



Nas alturas em que o meu dever e o meu coração estavam em contradição, o primeiro raramente saiu vitorioso, a menos que bastasse eu abster-me; então, na maioria das vezes, eu era forte, mas sempre me foi impossível agir contra o meu feitio. Quer sejam os homens, o dever, ou mesmo a fatalidade quem comanda, sempre que o meu coração se cala, a minha vontade fica surda, e eu não sou capaz de obedecer. Vejo o mal que me ameaça e deixo-o chegar, em vez de agir para o evitar. Começo por vezes com esforço, mas esse esforço cansa-me e depressa me esgota, e não sou capaz de continuar. Em todas as coisas imagináveis, aquilo que não faço com prazer logo se me torna impossível de levar a cabo. 

Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

De malas aviadas... para a vida!





Reticências


Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção. 
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; 
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! 
Vou fazer as malas para o Definitivo, 
Organizar Álvaro de Campos, 
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... 
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. 
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... 
Produtos românticos, nós todos... 
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. 
Assim se faz a literatura... 
Santos Deuses, assim até se faz a vida! 
Os outros também são românticos, 
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, 
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, 
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, 
Os outros também são eu. 
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, 
Rodinha dentada na relojoaria da economia política, 
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, 
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... 
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela, 
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, 
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica. 
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando, 
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, 
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... 
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 

domingo, fevereiro 20, 2011

Mergulho-me nos sonhos...

dive for dreams (by E. E. Cummings)







dive for dreams
or a slogan may topple you
(trees are their roots
and wind is wind)
trust your heart
if the seas catch fire
(and live by love
although the stars
walk backward) 
honour the past
but welcome the future
(and dance your death
away at the wedding) 
never mind a world
with its villains or heroes
(for god likes girls
and tomorrow and
earth)  in spite of everything
which breathes and moves(...)


Mergulha nos Sonhos





mergulha nos sonhos 
ou um lema pode derrubar-te
(as árvores são as suas raízes 
e o vento é o vento) 

confia no teu coração 
se os mares se incendeiam 
(e vive pelo amor 
embora as estrelas desandem) 

honra o passado 
mas acolhe o futuro 
(e afasta a tua morte no bailado
deste casamento) 






não te importes com um mundo 
de vilões ou de  heróis
(pois deus gosta de raparigas 
e do amanhã e da terra)
apesar de tudo quanto

respira e mexe (...)






 (Tradução por Elsa Lo)

sábado, fevereiro 19, 2011

Da areia dos (meus) dias....


O principal defeito da vida é ela estar sempre por completar, haver sempre algo a prolongar. Quem, todavia, quotidianamente der à própria vida "os últimos retoques" nunca se queixará de falta de tempo; em contrapartida, é da falta de tempo que provém o temor e o desejo do futuro, o que só serve para corroer a alma. Não há mais miserável situação do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o espírito inquieto debate-se com o inelutável receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? Há um apenas: que a nossa vida não se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma. Só sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente é vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu espírito, em perfeito equilíbrio, souber que me é indiferente viver um dia ou viver um século, então poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que espécie de perturbação nos poderá causar a variedade e instabilidade da vida humana se nós estivermos firmes perante a instabilidade? Apressa-te a viver, caro Lucílio, imagina que cada dia é uma vida completa. Quem formou assim o seu carácter, quem quotidianamente viveu uma vida completa, pode gozar de segurança; para quem vive de esperanças, pelo contrário, mesmo o dia seguinte lhe escapa, e depois vem a avidez de viver e o medo de morrer, medo desgraçado, e que mais não faz do que desgraçar tudo. 


Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

quinta-feira, fevereiro 17, 2011



A Vida
A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"



segunda-feira, fevereiro 14, 2011

O amor é a minha sineta de Pavlov!

«(...)

Constato, pela primeira vez e com alguma violência, que o mundo contemporâneo não foi feito para mim. Ou que eu não fui feita para o mundo contemporâneo. Sinto - fulminantemente e obscuramente e dolorosamente - que a matéria de que sou feita não poderá resistir a um só dos maravilhosos planos que a civilização humana tem preparados para mim desde há séculos: ser mulher, mãe, trabalhadora, cidadã. Crente, protestante. Ser amiga, ser amante. Sou uma peça do puzzle que não encaixa, um produto industrial com defeito de fabrico. Tenho por dentro um intruso, um inimigo invencível. Estou à mercê de um predador implacável. Compreendam: eu não posso esperar pelo Natal para que possa dizer que vos estimo. Eu não posso esperar pelo fim das coisas para que possa dizer que vos desejo bem. Do que eu preciso é de um mundo onde possa citar Rilke sem correr o risco de ser internada. Onde possa viver livremente o meu romantismo sôfrego e vagamente idiota. Um mundo onde possa aparecer - sem livro para devolver, sem DVD para pedir emprestado - e dizer «Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta»! 
Ouvir dizer «amo-te» era fácil, hoje já é mais complicado. Requer muito treino, não estamos preparados. Fomos educados para sermos acima de tudo eficazes. Nada nos foi dito na aula de descer abismos. Nada vem escrito nos livros que lemos. Tudo nos abala, nos confunde. Nos funde por vezes com o que, depois vemos, não é digno do nosso amor. 

Ah, o amor. O amor faz-se se houver tempo. O amor faz-se aos bocadinhos e só se convier. O amor faz-se na pausa para o café. O amor é uma aberração. O amor mete medo. Chega-te para lá com esse «adoro-te»! Não me venhas com esse «gosto de ti»! Cai-nos a PIDE do amor em cima, és apanhado e vais dentro. O amor quer-se preso pela trela. O amor quer-se de castigo no canto da sala. Pouca conversa, pouco barulho. O amor custa. Perde-se tempo e dinheiro. O amor está fora de moda. Não condiz com as batas brancas da biologia nem com os botões coloridos da tecnologia nem com a cor do papel dos contratos pré-nupciais. O amor é para meninos, ser-se crescido é outra coisa. O amor foi-nos confiscado. 
Não contem comigo. Eu não tenho jeito nenhum para ser a pessoa que todos esperam. Não tenho competência para ficar a ver o amor passar sem correr atrás. Compreendam: o amor é a minha campainha de Pavlov. 
Estímulo-resposta, como me foi explicado na escola de fazer profissionais. 
Eu não tenho jeito para telefonemas nem para passeios em centros comerciais. 
Não contem comigo para ser cão que ladra mas não morde. Não contem comigo para não dizer o que não é suposto. Para cancelar beijos, inventar pretextos, sufocar euforias, adiar alegrias. Para vos escutar em silêncio. 
Para vos poupar ao meu amor, não contem comigo. Compreendam: eu não me posso comprometer. »

Susana Cristina Marques Santos, in 'Textos de Amor – Museu Nacional da Imprensa'

domingo, fevereiro 06, 2011

2011: Ano Internacional do Voluntariado




Um Pouco Mais de Nós
Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

José Jorge Letria