quarta-feira, março 13, 2013

Viver em Macau é como apanhar SIDA duas vezes



Nunca apanhei SIDA. Nunca precisei de me atirar de uma ponte para saber que deve doer e muito. Nem nunca snifei cocaína para imaginar que devo gostar e não é pouco.
Mas viver em Macau é isso. É como apanhar SIDA duas vezes. Primeiro estranha-se depois entranha-se e tem que se desentranhar à força para não criar crosta.
É um processo caótico de integração e desintegração permanentes, uma viagem de comboio numa rota, que ora ascende ora descende, à velocidade concêntrica da roleta russa.
Isto não é viver Macau, é viver EM Macau, o que é diferente. Cidade das Luzes, sem o ser. Disneylândia de adultos para vender. Gente que joga sem amanhã, suando sangue pela testa. Prostitutas esvaindo-se pelas paredes embaciadas e homens babando fétiches mais ou menos envergonhados.
Viver em Macau é como andar descalço no fio da navalha, é como espreitar o abismo de pernas pró ar.
E depois existimos nós, os portugueses que aqui estamos, mais ou menos a prazo há 500 anos. Conheço macaenses, chineses, portugueses das nova e velha guardas e sempre fui muito bem recebida por todos.
O que mais me custou, no início, não foi o verbo. Também não foi adaptar-me a uma realidade bem diferente da minha que já é multicultural. O que me assustou, aqui no Delta das Pérolas, não foram nem macaenses, nem chineses: foram os "nossos".
A nossa comunidade em Macau é que deixa muito a desejar, a começar pelo termo "comunidade" que nem sequer tem aplicação literal. Arrumamo-nos (ou arrumam-nos) em guetos, logo que chegamos e assim permanecemos como se fossemos sardinha enlatada. Há o gueto dos jornalistas, dos arquitectos, dos engenheiros, dos médicos, dos professores, dos "contactos", dos juristas, dos advogados, dos alternativos, etc., etc..
Conheci pessoas interessantes em quaisquer desses grupos e por isso os interroguei e me questionei acerca deste "apartheid intra-luso"... Nunca obtive resposta satisfatória nem esgares de preocupação, até porque a crítica estava ali à mão de semear e dava menos trabalho aos neurónios!
Viver em Macau é isso. É pormo-nos a jeito para sermos criticados, fazermos o que temos a fazer independentemente disso, bem sabendo que alguém, algures, por alguma razão, mais cedo ou mais tarde, nos vai “cair em cima”... E às vezes dói.
Viver em Macau é como apanhar SIDA duas vezes. Apanhas, proteges-te e “On Fait nos Jeux” até que alguém nos diga “Rien ne vas plus!”...
E depois começa uma nova madrugada, um novo dia e percorre-se tudo uma, outra e todas as vezes, de um lado pró outro em rodopio…
A verdade é que penso que este nosso "regresso" a Macau, além de ter um background obviamente histórico, serviria, supostamente, um outro propósito mais pragmático, dentro da lógica da Lei Básica – “um país, dois sistemas”. Mas não nos vejo neste papel, nem agora, nem nos tempos que se avizinham...
Vejo os recém-chegados ingleses, americanos, entre outros, os quais, pese embora o "interesseirismo", sempre se mantêm fiéis aos seus e à sua pátria. Nós negligenciamos o que é nosso, aqui como lá, sempre mais a torto que a direito.
Podemos ser milionários em experiência no que toca a leis, andaimes, jornais, bisturis e currículos escolares, mas a dar o exemplo somos, de facto, pobres... paupérrimos!
E é uma pena!....

1 comentário:

Anónimo disse...

leitura atrasada mas tive que comentar. bullseye minha querida. era assim, foi assim e será assim, por aquilo que somos. já me livrei do peso da Pátria embora não em Macau, por onde resido assim é, infelizmente. única excepção é com os antigos Ultramarinos, os que viveram em África. raça em extinção. Bem haja. PF