terça-feira, setembro 26, 2006

Porque o Dia de Finados é quando o homem quiser

Também já me perguntei... já me perguntei, e repito-me nas eternas perguntas lançadas a quem não me responde. Peço colo para calar, os abraços abafam o que nos dói, mas há desatinos que nos perseguem colados quando não nos conseguimos despedir de quem amamos. E é favor usar o verbo, gostar é de sumo de laranja.
Não consigo dividir esta moinha com ninguém, porque não há braços tão longos, nem pessoas que conheçam tão bem o compasso do que nos assusta. Os lugares demoram tempo a fazer e as linhas do coração também. A descoser então nem se fala, é preciso um especialista para afagar a ferida sem magoar, fazer sangue, não causar dano e aplicar a pomada que cicatriza.
É uma ponta solta não nos conseguirmos despedir de alguém (semi-eterna, espero!). Mas há mais paz nos mortos que velamos em vida, do que naqueles que não envelhecem e vão sem dizer adeus, para além ou aquém de nós.
As saudades da minha Nana são serenas, nessa altura já tinha aprendido a fazer pelos mortos enquanto estão vivos, e quando ela me visita tenho sempre um sorriso para brindar a sua memória. Deu-me paz ter a noção que mais vale fazer que chorar, e segui-a o mais que soube até ao fim, mesmo que nos tenhamos encontrado quase no fim de uma vida, e ela insistisse em me xingar, mas de facto era por eu ser a preferida – amores perfeitos!. E quando se foi de surpresa, combinada com o avô para a vir buscar, chorei que nem um bezerro, mas dei-lhe a mão e uma flor, e fiquei com ela até deitarem o ultimo punhado de terra, triste mas firme, com ela até ao fim do fim. Além disso, ela já sabia que eu a amava, e que aprendemos a rir as duas - embora mantenha a certeza que não fiz tudo o que podia. Estes são os mortos que nos dão paz!, os que dividiram connosco o coração, as queixas, os dias, e a partida.
Depois há aqueles que vão sem querer, de repente, num ano ou num segundo, a quem não tivemos tempo de dizer adeus, de conversar aquele café adiado, ou de viver o que a vida prometia. Uns que não vimos ir, porque um segundo os colhe, outros porque recusámos participar na morte anunciada. Trazem a dor da impotência, e a certeza que nada mais podemos fazer, nem de novo, nem de velho. São velas que ficam sempre a arder cá dentro...e que trazem saudades que doem e apertam o coração.
Mas pior, pior são os que partem daqui para aquém de nós, e ainda vivos, tornam-se intangíveis e inacessíveis, semideuses de uma vida banal, sem entender que nos fazem mais mal, que é incompreensível aceitar que alguém morreu se está vivo. Respiram num lado qualquer, existem para o mundo menos para nós. São os que não deixámos ir, contrariados, e que partiram sós porque querem, porque sim, porque não há palavras que colem as pessoas. São os cemitérios onde se enterra a dor do abandono, e cada vez que passamos à porta, nos revolvem as entranhas nas memórias que temos do que ainda existe mas não. É-me ininteligível, não consigo apreender, ultrapassa a minha física e metafísica. Por isso, só aprendi a passar ao largo da porta onde está escrito: Não é por se gostar muito de Alguém, que Alguém gosta de nós. E por isso, há memórias que é melhor manter fechadas, arredadas, atrás da porta do cemitério, e não fazer barulho que as acorde, não as conversar, desviar quando nos surpreendem ao virar da esquina ou a meio do banho: afinal, são os mortos-vivos que nos perseguem, os mortos descansam, e nós com eles, em paz.
O que é que isto tem a ver com Macau? É que eles voam, e atravessam mares e continentes, e o nosso pequeno inferno, anda passo a passo com a cama onde dormimos...

Madre, anoche en las trincheras
Entre el fuego y la metralla
Vi un enemigo correr
La noche estaba cerada,
La apunté con mi fusil
Y al tiempo que disparaba
Una luz iluminó
El rostro que yo mataba
Clavó su mirada en mi
Con sus ojos ya vacios
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Hoy el fuego era verdad
Y mi amigo ya se entierra
Madre, yo quiero morir
Estoy harto de esta guerra
Y si vuelvo a escribir
Talvez lo haga del cielo
Donde encontraré a José
Y jugaremos de nuevo
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
"

Anónimo in Cancioneiro Espanhol

1 comentário:

maria g. disse...

idem aspas aspas aspas.. não haverá sabedoria chinesa para aniquilar o passado pegajoso?