terça-feira, julho 25, 2006

Mrs Brown

Pergunto quantas vezes já não apeteceu a todos nós ser uma pessoa diferente do que somos, por breves instantes? Ou quantas vezes não nos apetece sair de nós e sermos uns estranhos, meros observadores, da nossa própria vida? Ser observadores da personagem que somos, do papel que desempenhamos neste palco, em que umas vezes somos protagonistas, - ou sentimo-nos enquanto tal – e outras meros figurantes?
Não gostávamos, por vezes, de fazer as coisas de uma outra forma, de optar de forma diferente?
Falo depois de acabar um livro um tanto ou quanto, aos meus olhos, depressivo apesar de bastante original, As Horas (Michael Cunningham). E falo, em especial a pensar numa das suas personagens, Mrs Brown, que é na minha opinião uma personagem perturbadora pela sua aparente vida normal. Uma dona de casa norte-americana do pós-guerra, com a sua impecável casa, o marido perfeito que a adora, um filho amoroso, e que tem, aparentemente, tudo o que podia desejar e que aparentemente é feliz. A verdade? Toda a sua vida é uma fraude. Comporta-se como se espera que ela se comporte. Vive uma vida que não é a sua. É uma personagem da sua própria vida não por breves instantes mas todos os dias, desde que acorda até se deitar, vivendo obcecada com a ideia de se suicidar, afinal a saída mais fácil para a sua existência.
À primeira vista, a razão desta personagem ser perturbadora deve-se ao seu perfil ser tão facilmente encaixável na vida de tantas mulheres... Mas se nos abstrairmos dela ser mulher é também perfeitamente encaixável em qualquer um de nós, independentemente de ser homem ou mulher, ou de ser dona de casa. A sua essência é ser alguém diferente do que na realidade é; é não dar-se a conhecer; é ter uma vida diferente da que gostava de ter.
Numa terra pequena como esta onde vivemos, por vezes, somos confrontados com essa realidade de nem sempre fazer o que realmente nos apetecia fazer ou dizer, na maioria das vezes para não ferir susceptibilidades... Por outro lado, num sítio tão pequeno e onde a amostra, forçosamente, é também reduzida torna-se fácil para um observador mais atento, ver os papéis que todos nós, de alguma forma, desempenhamos.
Por um lado, desempenhamos pela importância que temos ou que nos dão, por outro que desempenhamos, no verdadeiro sentido, porque a isso nos sentimos obrigados!
Pela sua dimensão e pelas suas micro-realidades , aqueles que cá vivem, e entre os quais me incluo, são quase que como “forçados” a agir como se espera que venham a agir, a dizer o que nem sempre pensam, e até a pensar como nem sempre pensariam.
Na realidade não será que somos em qualquer momento das nossas vidas, por mais fiel que tentemos ser à nossa Vontade, personagens que nem sempre correspondem à... Verdade?

3 comentários:

Anónimo disse...

Sim, somos personagens que nem sempre correspondem à verdade, e ainda bem!
Falando por mim se me conhecessem como sou verdadeiramente no meu todo (mesmo que em certos momentos, mas que não deixam de ser momentos) talvez os meus verdadeiros amigos o deixassem de ser ou pelo menos pensariam duas vezes antes de se aliarem a um ser tão estranho capaz de conceber o que concebo (estarei sozinho? Se estiver prefiro não saber...)
Acho que o facto de não sermos realmente quem somos perante os outros e ser personagens a maior parte do tempo é uma das razões da convivência pacífica quem bem ou mal tende a reger a nossa espécie. Não existe nenhuma regra de convivência social que nos diga para sermos nós mesmos e muito menos uma outra que nos diga que ser nós mesmos é melhor do que não ser.
Se assim fosse estaríamos, creio, privados da nossa liberdade profunda de escolhermos quem queremos ser, pois eu posso não gostar de quem sou e querer ser diferente ou melhorar alguns aspectos da minha maneira de ser ou mesmo querer ser de certa forma perante certas circunstâncias e de outra forma perante outras circunstâncias e por aí em diante. Desde que me conforme com o básico da convivência pacífica que a vida quotidiana exige, posso ser o que quiser, para quem quiser quando quiser. Posso ser um tesouro para os meus e ser um ultraje para observadores menos atentos.
De uma forma simples, parece-me que a regra de convivência social que efectivamente existe será a da convivência pacífica e, digamos, séria e honesta (honesta, naturalmente para com o sério e com o pacífico). Nada mais.
Se queremos ser alguém diferente - mudar de papel - ou mesmo dizer o que nós achamos que deve ser dito - isto é, mudar de guião - ,num estado normalidade de coisas (como parece ser o da Mrs Brown) basta-nos para isso a coragem/vontade de mudar ou falar, e o único requisito será a liberdade para tal.
Existindo liberdade, somos nós mesmos sozinhos, com os nossos botões, que decidimos e claro está, acarretamos com a responsabilidade dessas decisões /afirmações. Mas isso cabe a cada um. É simples e tudo indica que está no poder de cada um decidir e só a ele lhe diz respeito.
É claro que a história da Mrs. Brown poderá ter um sentido mais profundo, querido pelo autor ou encontrado pela massa crítica, sentido esse que eu infelizmente desconheço porque não li o livro. Mas o resumo que faz indicia um retrato tudo menos transcendental desse sentido e uma existência verdadeiramente desapegada da vida .
Resta-me constatar que o facto de a Mrs Brown ter feito o que fez com a vida dela pode até ter sido intencional, e se foi, nada há de perturbador, antes pelo contrário.

Anónimo disse...

O que eu acho mais estranho em tudo isto passa essencialmente pela ideia das personagens???... podemos ser burros porque afinal isso não é melhor ou pior que ser esperto, porque estamos safos... safos porque somos personagens de um teatro maior qualquer.???...
percebo que gostamos de acreditar que somos um outro, mesmo que isso signifique que afinal nunca nos descobrimos.... "Je suis un autre" como escreveu Rimbaud, e isso afinal tanto pode ser uma crua certeza como pode significar muitas outras coisas... mais do que ser personagem, somos outro e esse outro vale tanto como aquele que julgamos ser, esse outro pode ser inclusivamente mais verdadeiro que as mentiras quotidianas que o nosso eu julga viver...
eternas questões, qe fazem sempre sentido relembrarmos... quem sou eu? de onde venho? para onde vou?
Acreditar na fantasia das personagens parece-me ser problema de adolescente mas se se quiser acreditar nisso, enfim, que se acredite... Cada um acredita no que quiser...
acho que a questão passa antes pelo conceito do alter ego do que realmente do da personagem...
sobre esta necessidade de interpretar o mundo segundo a luz de diversos 'eus" vagueio de memoria por passagens do Bernardo Soares no seu, sempre genial, "Livro do Desasossego".
se calhar estou errado, mas gosto mais deste conceito... obriga-nos a sermos responsaveis por nós... coisa que se esconde no conceito do personagem...

faai dì làa disse...

A ”ideia de personagens” relaciona-se com o assumir de papéis na nossa vida quotidiana, vida profissional e vida pessoal/familiar. Encarnamos esses papéis porque queremos, porque exigimos ou porque é o que de nós se espera. Mas seja qual for o caso é um acto da nossa vontade – e logo responsabilizável - ainda que nem sempre corresponda ao que sentimos.
Não se pretende reflectir acerca de uma outra personalidade ou de uma outra persona que em nós habita. Nem se pretende falar dos vários “eus” que podemos ser e se encontram inerentes à adopção de um pseudónimo. E dessa forma, sim, podemos estar por detrás de uma outra “pessoa” e haver como que uma desresponsabilização.
Deste ponto de vista, a constatação da convivência dessas várias personagens, e dos seus papéis, ao invés de ser uma capa através da qual estamos “safos”, revela antes o aceitar as respectivas consequências e ainda assim saber que... “Je suis un autre”!