quinta-feira, junho 29, 2006

EU, PORTUGUESA, ME CONFESSO...

Quando me questiono acerca de qual o legado que deixámos em Macau, ao cabo de uma presença mensurável em séculos, a resposta parece óbvia – desde a traça arquitectónica, passando pela gastronomia macaense, às placas de ruas, ainda redigidas em português, e a alguns hábitos sócio-culturais, tudo isso, aqui e ali, logra transportar-nos, involuntariamente, à Pátria lusa.
A verdade, porém, é que tirando isso, pouco ou nada ficou, nestas paragens, da ponta mais ocidental do velho continente, sobretudo se tivermos por referência a terra vizinha – Hong Kong – onde o “british way of life” é flagrantemente notório!
Por outro lado, e à medida que nos vamos instalando gradualmente nos meandros de Macau, facilmente se observa um fenómeno que nos deixa na dúvida em relação à afirmação anterior.
Com efeito, uma das marcas mais características desta terrinha é essa coisa tão portuguesa do “diz que disse”!
Claro que não o sentimos mal aterramos, porque, aí, somos nós o alvo dessa má-língua:
_ “Olha aquela desgraçada, sabes quem é? Parece que anda com aquele fulano que anda sempre na noite, sabes? Coitada, não sabe ao que vem!...”;
_“Eh pá, parece que vem aí um advogado novo, mas pela gravata que usava na foto que me mostraram, deve ser mais um daqueles a quem Deus perguntou, quando criou o Homem: _Olha lá, queres ser bonito ou ir para Macau?”
Já com o correr do tempo, começamos a ouvir, à légua, esses resquícios hodiernos das ancestrais “cantigas de escárnio e maldizer” – faz lembrar os velhotes das aldeias, sentados na soleira da porta de casa e que não perdem pitada de quem entra, sái, que carro traz, com quem vem, enfim...autênticas antenas parabólicas que, depressa, se prontificam a divulgar tão extraordinários eventos por toda a comunidade!!!
É isso, exactamente, que sucede em Macau! Porque não se passa mesmo nada, ou seja, como a cidade do santo nome de Deus vive - e registe-se a ironia -, à sombra desses estandartes publicitários tão pagãos, como sejam o dinheiro, o jogo, a prostituição, mais não resta às pessoas que cá vivem a não ser entreterem-se, alegremente, a escarnecer os alheios tempos de ócio e lazer!
Portanto, quanto a mim, se há herança portuguesa neste Delta do Rio das pérolas, é esta: a arte do corte e costura!!!
E o tuga que nunca “cortou” em ninguém que atire a primeira pedra! Está para nascer a alma lusitana que não tenha dentro de si, no mais ínfimo que seja, uma “costureirinha de trazer por casa”!!! Essa é que é essa!

8 comentários:

Anónimo disse...

Sim senhor, cara Dra E. Essa é que é essa...E que exemplo perfeito do "quem atira a primeira pedra"... Gostei desta pequena "auto-biografia". Uma pequena contribuição, para o debate de ideias: quem sabe estar em Macau, porque esses são os que se sentem bem por cá, e "quem não se sente..." nem "às paredes confessa" por causa desses outros, a quem as pedras retornam, para os seus telhados de vidro. Concordam ?

Yāt go yàn 一個人 Yī gè rén disse...

Ex.mos Srs. Drs: alegra-me, sobremaneira, o simples facto de lerem o blog! Pois que é precisamente este o feedback que se esperava!Nem mais, nem menos...ou seja, à medida das mentes brilhantes que tanto abundam cá na terra!E fico mais sensibilizada ainda, porque tanto quanto sei, mal se podendo Vexas. coçar, por força do buliço forense, ainda arranjem uma nesguinha desse vosso precioso tempo (que aqui é MESMO DINHEIRO) para fazer uns comentários aos meus textos!
Objectivos cumpridos! Reitero os meus agradecimentos, mui ilustres senhores, pelas pérolas, até então, postadas nos meus textos.

Anónimo disse...
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Anónimo disse...

A "arte do corte e costura"? Pois bem. O desconhecimento da realidade social chinesa em Macau parece ser total por parte da escriba que se alega o "orgulho" de pensar que se trata de um exclusivo com génese nessa tão nobre alma lusitana. Presume-se assim que tenha chegado há pouco tempo a Macau (menos de 5 anos). Fique por cá mais uns aninhos, veja se se consegue dar normalmente com outras comunidades (que não juristas, tugas ou notívagos) e verá que não existe comunidade mais bem informada sobre os seus vizinhos, colegas de trabalho, negócios e parcerias comerciais, amantes, interesses políticos, etc que a comunidade chinesa. A grande diferença é a forma como esta característica se expressa. No caso chinês faz parte de um jogo de vivência social que enobrece quem o sabe praticar e nunca ninguém o se lembraria de designar por má língua, seria melhor que fosse descrita como a "arte do smoking e do vestido de noite" ( se é que entende o que quero dizer!). Já no caso português, a expressão máxima desta característica faz-se sentir nas pessoas de certas e certos juristas que se acham de tal forma importantes, entenda-se com direito a serem alvo do tal "diz que disse", que até acham que podem escrever para os jornais, opinar sobre a realidade local, sem terem a noção do rídiculo em que caem...enfim dever-se-ia designar como a "arte da chinela e da camisola de alças". A propósito...levante-se, vá ver-se ao espelho e depois diga-me o que tem vestido!

shufajia disse...
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Yāt go yàn 一個人 Yī gè rén disse...

Caríssimos comentadores:
Devo dizer, antes de mais, que este blog pretende ser um espaço de debate e,nesse sentido,aberto à digladiação de ideias! Nesta conformidade,não é nossa intenção suscitar qualquer tipo de peleja, ainda que virtual, pelo que, de hoje em diante, só serão publicados os comentários que se prestarem a comentar os textos postados.
De todo o modo, obrigada pela atenção demonstrada.

Anónimo disse...

Macau não é só a comunidade portuguesa... Penso que ainda não se entranhou em Macau!

Yāt go yàn 一個人 Yī gè rén disse...

Caríssimo anónimo: Não me entranhei, nem pretendo fazê-lo...Descobri que macau não era só a comunidade portuguesa, muito tarde, tarde demais, por culpa minha, é certo, mas tb por culpa dessa mesma comunidade que se isola em guetos, é uma facto!
Já não fui a tempo...Hèlas! Vou a tempo de outras coisas...